• Tomaz André

A palavra inspirada por um certo Padre Benedito

Atualizado: Jan 29



Uma fábrica de lancheiras plásticas, cujas vendas não iam tão bem quanto o dono gostaria, encomendou ilustrações para adesivos que seriam colados nas lancheiras, a fim de atrair atenção da criançada e aumentar o faturamento.


Imagens humanizadas de três "criaturas" tocando numa banda de rock foram elaboradas pelo ilustrador Maurício Júnior, artista gráfico, quadrinista iniciante e fanzineiro, que se destacaria anos mais tarde como tatuador.


Além de desenhar profissionalmente desde a década de 1990, Maurício também já havia iniciado sua jornada como baixista na banda Desintegration (trash metal). A temática do universo roqueiro, naturalmente, influenciou seu trabalho, tanto nos quadrinhos quanto nos fanzines e nas tatuagens.


Elmano é o nome do empresário que encomendou os adesivos para as lancheiras. Num flash de memória, surge a sensação dele dizer, certa vez, ser evangélico.


Entre os clientes da Mult Art (gráfica surgida a partir de um estúdio de criação e arte final, onde Maurício Júnior trabalhou até pouco tempo antes da virada para o século XXI), havia também o Padre Benedito, um sacerdote criativo e que dava sinais de desenhar com desenvoltura. Quase todos os trabalhos encomendados para a instituição religiosa onde o Padre trabalhava na área de comunicação eram finalizados a partir de esboços dele mesmo.


Mais que sugerir a diagramação de diversos impressos, com a composição de imagens e outros elementos, o Padre gostava de criar títulos de impacto. Ao entrar sem hora marcada no estúdio gráfico, Benedito viu a ilustração feita por Maurício Júnior e disparou: "Legal, esse desenho aí. Rockão!" Em seguida, explicou o trocadilho: "Cães tocando rock só pode ser Rock de Cão, ou seja, Rockão. Sacaram?!"


O Elmano, o Maurício Júnior e eu nos entreolhamos. Na condição de diretor de arte, falei:


"Bêne," - assim o Benedito gostava de ser chamado - "Rock do Cão é um termo surpreendente vindo de um padre..." "Não é Rock "DO" Cão, é Rock DE Cão, feito por cães...", corrigiu Benedito.


"Achei legal", disse o supostamente evangélico Elmano.


"Sim! Aprovado, então, né?" - foi logo falando o Padre Benedito, que, para não perder o hábito dos sacerdotes, emendou discorrendo sobre palavras:


"– Esse negócio de chamar o Diabo de Cão, nunca gostei... Li numa revista de rock (foi a vocalista de uma banda dos anos 80 quem disse) que a palavra Cão é um anagrama da palavra Deus, em inglês: Dog, ao contrário, é God, sacaram?! Eu adoro brincar com as palavras, assim, a escrita dos homens. Mas com a verdadeira Palavra, que é a de Deus, eu não brinco... Rockão é legal porque os cães são criaturas lindas de Deus...,", finalizou o Padre.


Havia na sala, além de um supostamente evangélico, um atEU assumido. O Padre Benedito, com sua intervenção inusitada, pode até não ter conseguido converter os presentes ao catolicismo. Mas contribuiu para abrir nossas mentes. Bom humor, criatividade, boa convivência e respeito fazem a vida melhor.

Remake do Rockão


Durante o trabalho de divulgação da 14ª Edição Rock Cerrado – Música e Ecologia , à procura de fotos e artigos de jornais, percebemos que muitas histórias de festivais ou relacionadas às pessoas que fazem o rock do DF e Entorno foram perdidas ao longo do tempo. O circuito de shows sempre foi pavimentado por pessoas apaixonadas pela música e pela arte em geral. Assim, o Rock Cerrado , além de dar oportunidade para novos talentos, procura resgatar parte da história da cena local, através de crônicas e entrevistas com pessoas que há muito vêm trabalhando pela arte e cultura, fazendo-as presente no cotidiano das pessoas.

Já no início de 2021, foram encontradas quatro de uma série de ilustrações produzidas para lancheiras infantis em 1999. Resolvemos contactar o Maurício Júnior, autor dos desenhos. O cara tem história! Criou o Smaze Zine (sobre bandas rock) e o PsycoZen (de HQ autoral) nos anos 1990; Participou do Cabeça Torta (também nos anos 1990 e de HQ autoral), com o amigo cartunista Mafral; Colaborou com o zine Brigada do Barulho (final dos anos 1980/início dos anos 1990) e também com o Protectors of Noise, ambos do amigo Fellipe CDC, vocalista de diversas bandas.; Como ilustrador, colaborou ainda com o Zine Oficial, surgido em 2006, dedicado a divulgar festivais de rock. "Você lembra do Rockão, título sugerido pelo Padre Bêne para um desenho que você fez?", esta foi a pergunta inicial no contato com o Maurício, que respondeu meio surpreso:

Lembro, sim... Uma figura, aquele padre! Faz mais de 20 anos! Por que tá perguntando isso agora?


A explicação foi que a produção solicitou a publicação de fotos antigas do Festival no site do Rock Cerrado – Música e Ecologia. Na procura por tais fotos, apareceu um CD com quatro ilustrações que ele fizera para lancheiras infantis, na mesma época em que foi baixista da banda Desintegration. Em seguida, Maurício foi bombardeado por uma série de perguntas:


– A Desintegration não tocou no Rock Cerrado, né? Quais outras bandas que você fez parte? Como baixista: Eminent Shadow, Death Slam, Abhorrent, Mortaes e PUS; Lembrando que tive uma semana de baixo na banda cearense Surto, em sua passagem por Brasília. Não fiquei na época, mas cheguei a ensaiar para o show em São Paulo (depois a Surto estourou nacionalmente com a música A cera ('Pirou o cabeção') . Como guitarrista, toquei na Lost Head. – A PUS tocou logo nos primeiros anos do Rock Cerrado – Música e Ecologia, quando você ainda não fazia parte da banda. A Abhorrent tocou também, mas nos anos 1990. Consegue lembrar se você tocou em 2012 (com a Death Slam) ou nos anos 1990 (com a Abhorrent)?


Cara... Eu não estava na Abhorent nos anos 1990. Também não toquei no Rock Cerrado em 2012, infelizmente... Saí da Death Slam muito antes. Bicho, foram muitos shows e muitos festivais. Não tem como lembrar de tudo. Moro no Gama (cidade de origem do Rock Cerrado – Música e Ecologia) desde 2016. Participei do Festival como tatuador. Eu e o Joubert (da Alta Voltagem Tatoo). Colocamos um stand lá uma vez. Eu não guardo quase nada de cabeça... - Sobre tatuagem... Diga o nome daquele seu livro de ilustrações, número de páginas... - Caray! Tão a fim mesmo de me ferrar? Kkkkk! Vou ter que ver...


Neste ponto da entrevista surpresa, foi solicitado ao Maurício Júnior fazer um remake do Rockão. Na certeza de que a memória gráfica dele é bem maior que a capacidade de guardar datas, os desenhos encontrados no antigo CD não lhe foram mostrados. Também foi solicitado que, ao nos mandar o remake do Rockão, ele nos enviasse um ressumo sobre suas atividades desde a década de 1990 até o final de 2020.


As lembranças do artista revelaram momentos especiais de sua carreira: “Sempre fiz fanzines de quadrinhos. Sobre o episódio inicial criado para o que seria a saga No Fim dos Tempos, que fez parte de uma revista em parceira com o Neto (autor e desenhista da personagem Lady Dragão), na época eu tinha participado de uma seletiva em SP para ser quadrinista da Marvel pela empresa Art & Comics. Passei na primeira fase e, por motivos pessoais, não continuei. Foi quando a Mult Art (através de um maluco lá, dono!), resolveu lançar na cara e coragem uma revista de HQ aqui em Brasília. O legal foi a participação do meu professor de faculdade, Jô Oliveira. Ele deu uma entrevista que saiu na revista. Jô (consagrado artista brasileiro) é um dos meus ídolos e tive a grande honra de ser aluno dele por um semestre na UnB (Universidade de Brasília).”


“Trabalhar como gráfico e depois publicitário foi super gratificante. Principalmente porque pude, além de ilustrar (que realmente é minha profissão principal), aprender design, computação e publicidade como um todo. Tive a oportunidade também de trabalhar com desenho animado na empresa Asa Vídeo, outra área de muito aprendizado.”


“Com relação à música, voltar à ativa foi excelente, principalmente porque a formação da PUS em 2018 (banda de death metal) reuniu amigos (Ronan voz; Sara guitarra; Daniel Moscardine bateria; Eu, no baixo) e este é um fator indispensável para a convivência. A PUS (Porrada Ultra Suicida) se tornou uma das bandas mais importantes de Brasília. Foi sempre destaque por onde passou. E eu sempre fui muito fã. Quando o Ronan me convidou, aceitei na hora. Mas foi bem difícil voltar com a mesma energia que toquei em outras bandas, antes. É muito torcicolo no dia seguinte a um show... O importante é que precisando, tô pronto!” "Além de ter voltando a tocar, retornaram também ilustrações para capas de álbuns das bandas de amigos. Já fiz para algumas mais antigas, e estou fazendo para algumas novas."

Para conhecer mais o trabalho de Maurício Júnior como tatuador e músico, acompanhe o perfil dele no Instagram @mauriciobastos_mjr e visite o site www.mauriciobastos.webnode.com



Sempre que possível, o ilustrador Maurício Júnior inclui o rock em seus trabalhos. Acima, nova versão do desenho que foi impresso com o título Rockão. Abaixo, 4 ilustrações feitas por Maurício em 1999, integrantes da série de adesivos para lancheiras infantis, na qual figurou também a versão original do desenho Rockão.


NOTA IMPORTANTE: Continuam abertas as inscrições para as seletivas do Rock Cerrado – Música e Ecologia. Saiba Mais>>>


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